Monumento de Xavier pode inspirar novas gerações

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Os chefes tradicionais ‘lia-nain’ realizam rituais tradicionais no monumento, antes da sua inauguração. Foto Tatoli/Antonio Goncalves

DÍLI (TATOLI) – O Ministro de Estado, Coordenador dos Assuntos da Administração do Estado e da Justiça e Ministro da Administração Estatal e Presidente da Comissão Organizadora dos eventos de 20 de maio, Dionísio Babo Soares, disse que os feitos e sacrifícios que o saudoso Francisco Xavier do Amaral, proclamador da Independência de Timor-Leste, fez à nação, podem ainda continuar a inspirar as novas gerações.

“Para que as novas gerações não se sintam desligadas da história”, disse Dionísio Babo na cerimónia de inauguração do monumento do saudoso, na tarde do dia 20 de maio, na rotunda do Centro de Convenções de Díli.

Este monumento simboliza a honra e o sacrifício do proclamador na luta pela independência da nação.

A cerimónia tradicional do monumento e as pedras que os trabalhadores recolheram e colocaram para erguer esta obra “servem para dar sombra às futuras gerações e ser um símbolo que pode consolidar a unidade e a estabilidade no desenvolvimento nacional”, acrescentou o governante.

Dionísio Babo Soares apelou a todos os timorenses, para juntos, consolidarem a independência, segundo o espírito de luta de um homem que era conhecido afetivamente por ‘Avô Xavier’ ou ‘Avô Xavi’. “Juntemo-nos para consolidar a unidade e a estabilidade para o desenvolvimento nacional”, disse.

O novo Presidente da República, Francisco Guterres Lu-Olo, no seu discurso, salientou que esta obra era uma homenagem que representa a liberdade e a democracia para Timor-Leste. “É um grandioso monumento, mas, não é maior do que a forma de ser e o cargo do proclamador, saudoso Francisco Xavier do Amaral, e é incomparável com o trabalho realizado por si, por esta terra”, afirmou.

Lu-Olo acrescentou que não vivemos só do passado, mas, momentos como aquele, recordavam-nos também dos que lutaram, dos que deram a vida pelo país, corajosos, com grande espírito de sacrifício, que trabalharam muito e deram a cara, enfrentando vários desafios.

O Secretário-Geral do partido FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) frisou que os monumentos a Xavier do Amaral e a Nicolau Lobato, entre outros, são a marca de que se deve mostrar unidade nacional, “consolidar a nossa vontade coletiva e fazer de Timor um bonito e bom país, próspero em democracia, estabilidade e desenvolvimento”, trabalhando juntos em prol do progresso da nação.

Kay Rala Xanana Gusmão, o Ministro do Planeamento e Investimento Estratégico, apelou às novas gerações para deixarem o egoísmo de lado, unindo-se e participando no desenvolvimento. “Como pertencente à velha geração, peço às novas gerações para se juntarem, reunindo-se num só pensamento, juntarem os esforços para desenvolverem o nosso país e o nosso povo”, disse.

Um dia antes de falecer (19 de maio), o antigo governante durante a ocupação indonésia e o período da independência, Mário Viegas Carrascalão, reconheceu que Xavier do Amaral era moderado, nacionalista, com espírito patriótico e corajoso na luta pela libertação de Timor-Leste. “Estátua merecida para o povo poder conhecer a história”, afirmou.

Os familiares do proclamador agradeceram ao Estado timorense, através de palavras dadolin e do ritual look bua-malus dos chefes tradicionais lia nain karketu mota ain dirigidos ao líder histórico Kay Rala Xanana Gusmão e ofereceram um tais (pano tradicional de Timor-Leste) ao novo Presidente da República, Francisco Guterres Lu-Olo.

Francisco Xavier do Amaral nasceu no dia 3 de dezembro de 1937, em Turiscai-Manufahi, e faleceu no dia 6 de março de 2012, em Díli, com 75 anos, vítima de doença prolongada.

Era filho de Afonso Gregório Mesquita e Áurea Mendonça Rodrigues Pereira, ambos naturais de Timor, e tinha seis irmãos.

Começou a aprender o “abc” em Ainaro. Matriculou-se na 1.ª classe em Díli, em 1949, e completou depois a primária no Colégio Nuno Álvares Pereira, em Soibada.

Fez os estudos secundários no Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima, em Dare, Díli, e concluiu o 5.º ano, em 1955.

Foi um dos primeiros seminaristas timorenses enviados para Macau, terminando os seus estudos em Filosofia e Teologia, no Seminário Maior de São José.

Em 1963, regressou a Timor e fez estágio até 1964 para poder dar aulas no Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima.

No ano de 1965, o prelado de Díli, Dom Jaime Garcia Goulart, comunicou a Xavier do Amaral que poderia ficar como leigo mas não como padre e este deixou o seminário, ensinando depois no Colégio Salesiano de Bispo de Medeiros, em Lahane, Díli. Abriu depois uma escola particular de primeiro ciclo em Santa-Cruz.

Foi nomeado funcionário público na Repartição Provincial dos Serviços das Alfândegas de Díli entre 1968 e 1974 e, nessa altura, o Governador do Timor-Português, Brigadeiro José Nogueira Valente Pires, nomeou-o para ensinar Literatura Portuguesa e Latim no Liceu Dr. Francisco Machado, até 1970.

Durante a década de 1960, o espírito nacionalista contra o colonialismo gera manifestações frequentes dos estudantes, levando Xavier do Amaral a juntar-se a José Ramos Horta, Nicolau dos Reis Lobato e Marí Alkatiri e a criar um movimento anticolonial clandestinamente. Escreveu artigos publicados em comunicados e nos jornais “A Voz de Timor” e “Seara”, criticando a política colonial nas áreas da educação, habitação, cristianismo e marxismo, a pobreza, a fome, o analfabetismo e as razões da sua existência.

Com a revolução dos cravos em Portugal, em 25 de abril de 1974, abriu-se o processo de descolonização das colónias e o caminho para os timorenses iniciarem o seu percurso político. Xavier do Amaral, juntamente com os colegas nacionalistas, fundou então o partido ASDT (Associação Social Democrata Timorense), sendo eleito o primeiro presidente deste partido, que depois se transformou na FRETILIN (Frente Revolucionário de Timor-Leste Indepedente).

No dia 28 de novembro de 1975, proclamou a Independência da RDTL, no Palácio do Governo, em Díli, sendo o primeiro Presidente da República.

Com a invasão da Indonésia, a 7 de dezembro de 1975, refugiou-se nas montanhas.

Devido às diferenças de ideias entre os membros do Comité Central da FRETILIN, relacionadas com a estratégia da luta, foi capturado por Alarico Fernandes e um grupo das forças do partido, em Tutuluro-Manufahi. Foi mantido num buraco em Aikurus-Aileu, mencionado como traidor.

Em 1978, os militares indonésios capturaram-no em Díli e ficou preso domiciliariamente durante 22 anos, como prisioneiro político, na Indonésia.

Regressou a Timor-Leste em 1999 e decidiu fazer renascer o partido ASDT, ocupando a sua liderança e sendo depois deputado.

Candidatou-se às primeiras eleições presidenciais timorenses, em 2002, as segundas em 2007, onde alcançou o quarto lugar, e por último, em 2012.

Numa das últimas mensagens dirigidas ao povo e ao país, ‘Avô Xavi’ apela: “Enxuguem as lágrimas ao povo, limpem as lágrimas ao povo”. (Equipa cobertura da Tatoli / Editor: Elmano Caldas)